Contemporaneidades

Rendas, fluidez e delicadezas ganham corpo e alma no feminino de Fernanda Yamamoto.

Rendas, fluidez e delicadezas ganham corpo e alma no feminino de Fernanda Yamamoto.

24/10/2015

Rendas, fluidez e delicadezas ganham corpo e alma no feminino de Fernanda Yamamoto.

São Paulo na tarde nublada e chuvosa dessa quinta feira, dia 22/10, recebeu luz e cor especial com as  criações de Fernanda Yamamoto em sua coleção outono-inverno que foram apresentadas na passarela da 40ª edição do SPWF.

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Do bolinho (Bolo da Madre) que recebia os convidados e lembrava carinhosamente para ‘comer sem culpa’ tudo foi envolvido pela gentileza e pela delicadeza, mas com intensa força.  Tudo em sintonia com a visão e a proposta dessa estilista, designer e artista, uma criadora no sentido maior da palavra, que com olhar de atenta observadora e grande sensibilidade se envolve na cultura brasileira e tira dela o que há de melhor: a vivência marcada pela produção das mulheres rendeiras que nos entremeios escrevem e marcam a história pessoal, do lugar e do tempo, escrevendo, com suas atitudes e em suas rendas, histórias de vida.

Material do desfile que recebia os convidados: Release do Desfile acompanhado do bolinho em vidro do Bolo da Madre.

Material do desfile que recebia os convidados: Release do Desfile acompanhado do bolinho em vidro do Bolo da Madre.

O olhar observador somado a imensa sensibilidade e impulsionados pelo espírito criador e pelo desejo de encontrar as manifestações e expressões populares do patrimônio cultural brasileiro levou Fernanda Yamamoto para o Cariri Paraibano onde buscou com sua simplicidade e delicadeza, outros e novos conhecimentos, inspirações, referências, que logo transformou em um novo projeto de criação e de vida. Esse projeto desafiador não se voltava apenas aos interesses de FY, pois ela tem a sensibilidade de perceber o outro, o ser humano, as pessoas que se dedicam a produzir e a construir a cultura brasileira. E, diante da consciência da amplitude que a tudo isso envolvia, Fernanda se colocou a perceber, sentir, observar, ouvir, olhar, respeitar, trocar e transformou o projeto em algo com tamanha profundidade indo além, não apenas escutando as histórias, mas passou a fazer parte dessas histórias e, também, as  transformou.

FY viajou 7 vezes ao Cariri, trabalhou com o Coletivo Feminista Cunhã, com 77 rendeiras. Nesse percurso repleto de encontros conheceu os trabalhos, as casas, as histórias de vida, as mulheres que existem entre as linhas, os pontos, os floreios, os enlaces, os entremeios e as tramas construídas. Descobriu, conheceu, analisou, entrou em contato com as rendas, seu processo de feitura, se envolveu com as rendeiras com atitude de aprendiz e de admiração, viveu o ambiente local, criou a partir de todo esse conjunto que tocou sua sensibilidade e suas potencialidades e criou, propondo inovações. Novos pontos, maiores aberturas, novas formas de fazer e produzir nas criações que desenvolveu que se transformou em novos padrões a partir dos elementos da paisagem, do ambiente, das pessoas, das mulheres rendeiras que contemplava e vivenciava nos lugares que visitou. E, foi além do criar e do produzir, empoderou as mulheres rendeiras não apenas na troca e valorização dos aspectos materiais e culturais desses trabalhos. Empoderou as rendeiras como pessoas, como agentes, como mulheres de força e vida que se expressam no seu fazer cotidiano e na tradição que engendram ao rendar.

O resultado ficou marcado no processo de criação e desenvolvimento em todas as peças e no conjunto da coleção outono-inverno 2016. O olhar para dentro de si e com a consciência que isso ocorre no fazer das rendeiras levou FY a apresentar o apogeu do feminino a partir das rendas que constituem peças inteiras, casacos, vestidos, blusas que foram tingidas com pigmentos naturais manualmente, delicadamente, peça a peça, em tonalidades leves, claras, coloridas, luminosas. Finalmente o inverno ganha cara de Brasil: luz, cor, degrades, texturas, levezas, transparências, paisagens que ganharam forma de corpo. Modelagens, recortes, cruzamento de tecidos, de materiais, tressês de couro, feltragens. Sim, Fernanda além das rendas explora, trança e trama o couro, outra referência paraibana.

novos pontos criados por FY

novos pontos criados por FY

Rendeiras e alguns apoiadores do projeto Cariri Paraibano

Rendeiras e alguns apoiadores do projeto Cariri Paraiba

 

Fotos do Cariri e a renda Renascença com novos pontos, feltros e jacquards.

Fotos do Cariri e a renda Renascença com novos pontos, feltros e jacquards.

O desfile foi emocionante do começo ao fim. A emoção foi ganhando espaço e tocando o público presente. Várias vezes durante o desfile as pessoas tocadas por tudo o que se apresentava, aplaudiam e aplaudiam, muitas vezes e se emocionavam. Afinal, não era só a beleza, a leveza e a delicadeza da coleção que contagiavam o público. Isso tudo estava presente na cenografia, na trilha sonora, nas estruturas e modelagens das peças, nos acabamentos, nos detalhes, no conjunto, mas, também, estavam especialmente presentes na valorização da mulher e do feminino. Não apenas na beleza e no corpo das modelos, profissionais das passarelas, mas na presença das mulheres reais, com seus corpos normais, diferentes, volumes e corpos com identidade e alma. FY trouxe para a passarela algumas das rendeiras que trabalharam com ela, mas também trouxe amigas, clientes e sua avó que encerrou o desfile. Homenagem à mulher, a tradição, à sensibilidade, as histórias de vida na valorização do que há de mais humano, de sensível, de sentimento.


Na coleção toda se fez sentir a presença da mão e do gesto, do fazer manual e artesanal, do olhar transformador, do olhar para dentro de si, da percepção e atenção com a cultura, com as pessoas. Atitude típica dos grandes criadores que devolvem esse olhar ao mundo em forma de peças para vestir, para sentir, como diz Fernanda Yamamoto, em roupas que compõem histórias e tem alma!

 

 

Tingimentos naturais, tramas e estampas da coleção.

Tingimentos naturais, tramas e estampas da coleção.

 

Mônica Moura.

 


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